sexta-feira, 2 de maio de 2014

Foi assim que aconteceu VI




Ficámos na minha saída da faculdade.

Depois de três anos de muito esforço e de muita dedicação o Rúben estava, aparentemente, pronto para o mercado de trabalho. Nesses três anos, a minha vida foi bastante monótona e rotineira. Faculdade, casa e casa, faculdade. Pouco mais eu fazia. E, hoje, olhando para trás é algo de que me arrependo. Devia ter aproveitado para me divertir, viver mais a vida. Sair à noite, dançar, fazer as experiências próprias das alturas de faculdade. Mas não, o Rúben escondia-se pois tinha medo que alguém tropeça-se na sua homossexualidade. Um erro crasso... muitas vezes a R. me disse para tentar falar com um psicólogo. Sendo a minha confidente, nem ela sabia que eu era gay. Para ela eu era apenas alguém com uma auto-estima na lama, que acreditava ser feio, que acreditava que ninguém pararia para olhar para mim duas vezes a não ser para gozar. De facto tantos anos de comiseração e tanto tempo a sentir pena de mim próprio levaram a isso. Se eu visse alguém a olhar para mim na rua, acreditava que estariam a gozar comigo. Basicamente eu não gostava era de mim e, portanto, era dificílimo alguém gostar. Se eu não gostar de mim, quem gostará? Um provérbio que reúne toda a certeza do senso comum…

Mas voltando a linha da história. O Rúben acabou o curso e começou à procura de trabalho. Na minha ingenuidade, acreditava que seria um processo rápido, afinal de contas quem não quereria alguém com uma média como a minha. Claro está, que não foi assim tão fácil. Só consegui trabalho passados três meses, sensivelmente. Na altura a área que queria trabalhar era a da Banca. E lá consegui um trabalho num banco. O trabalho no Banco que eu queria, no entanto, com um contrato temporário. Apenas 4 meses. Nesse tempo, trabalhei que me matei, afinal de contas o plano era trabalhar muito pois não tinha vida pessoal e tinha de me entreter e como tantas outras pessoas acreditava que no final do contrato receberia a compensação por isso. Fiz tudo o que podia e não podia. No final até tive uma boa avaliação, mas o contrato não foi renovado. Diziam eles que este tipo de contrato não podia ser renovado, mas que voltariam a chamar. E, muita gente me disse que dentro em breve teria o meu lugar lá. Nas primeiras semanas em casa, posso dizer que quando o telefone tocava quase que o meu coração saltava do peito. E, nisto, passou-se um mês, dois meses e nada.

Perdi a esperança. Tinha de encarar o facto de que não iria ser chamado. Certo era, que já estava a enviar cv's para todo o lado, mas nada. Entretanto surge uma oportunidade na empresa da minha irmã. Uma coisa porreira, para trabalhar numa área na qual hoje me estou a especializar. Não que aquilo fosse o que eu quisesse na altura, mas era pareceu-me bem. No entanto, a chefe dela (que, por acaso, também é cunhada da minha irmã) achou que teria de me arranjar algo melhor. Afinal de contas eu era bom aluno. Paralelamente, marcou-me uma reunião com a responsável de um mestrado em gestão, de uma boa faculdade para averiguar a possibilidade da minha entrada. Não era bem aquilo que estava a ponderar mas acedi. Contudo, um grande problema, o mestrado era integralmente em inglês e o meu nível de inglês era consideravelmente baixo. Eu sou um perfeccionista por natureza e entregar trabalhos com más construções frásicas ou erros graves de ortografia deixava-me bastante receoso. Não me pareceu que estivesse apto para tal. Mas lá se arranjou. A rapariga do mestrado oferecer-me-ia um estágio no gabinete dela, onde só se falava inglês, e eu iria ao final do dia tirar outro curso de inglês. No final, estaria mais que apto a ingressar no mestrado. Esmola demasiada, não é?

Pois claro que era... e eu tão parvinho para ver. Lá me inscrevi no curso de inglês, aceitei a proposta. A rapariga ficou de me telefonar para acertar os últimos pormenores. Desse telefonema ainda hoje estou a espera. Fiquei tão revoltado, tão envergonhado por ter acreditado que realmente alguém me queria ajudar. Como é que eu poderia ser tão burro, eu que por natureza sou uma pessoa desconfiada.

Para ser franco, acho que a não aceitação teve um dedo da minha irmã. Nunca o consegui, nem conseguirei provar, mas sempre achei que ela tinha arranjado maneira de invalidar aquilo tudo. A forma como ela olhou para mim quando lhe contei o resultado da reunião com a rapariga do mestrado, a expressão dela era de inveja pura. Ficou o resto do dia de trombas e mal me dirigiu a palavra. Eu iria trabalhar a dois gabinetes dela, e a empresa dela estava a investir mais em mim que nela. Quase que coloco as mãos no fogo que alguma coisa ela fez. A irmã a que me refiro, foi aquela que fiquei dois anos sem lhe falar.

No entanto, resolvi seguir para mestrado. Não naquela faculdade, claro. Para outra. Escolhi o mestrado que estou agora a terminar. 

E como isto já vai longo, vamos deixar o resto para o próximo post. ;D

9 comentários:

  1. quero que isso melhore rapaz, tens tido uma vida bem complicada!

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    1. E melhora, vai sempre melhorando um bocadinho, mais que não seja porque o que não nos mata só nos fortalece... ;D

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  2. r. a ambos os comentários: acho que pensamos de forma mesmo parecida :)

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  3. Ai rapaz, ainda bem que já abriste os olhos. O trabalho não é tudo. Se não houver algo mais que isso, seremos sempre uns infelizes!

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    1. Passado!! No próximo post o paradigma já vai mudar ;D

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  4. Será que tem mesmo dedo da tua irmã?! Ou estás a tentar culpabilizar alguém por teres acreditado numa esmola maior?!

    Desculpa a minha questão. Admito estar errado...

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    1. Confesso que isso já me passou pela cabeça, no entanto, quanto mais penso no assunto e em alguns conjuntos de atitudes que se seguiram, mais claro se torna que algum papel no resultado ela teve... não te consigo dizer a que nível, mas teve sem dúvida...

      Não tens de pedir desculpa, ora essa... ;D

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    1. Não é bem horrível, é bastante egoísta e um tanto ou quanto egocêntrica.... Ele não se importa que os outros estejam bem, só não devem é estar tão bem quanto ela... Foi confuso? :S

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