segunda-feira, 28 de abril de 2014

Foi assim que aconteceu V




Ora vamos lá! A saída do período negro... Foi um caminho difícil, muito difícil e muito demorado também. 

Após aqueles fatídicos meses, finalmente consegui começar a trabalhar. Como consequência via mais gente, ganhei alguma liberdade, que não tinha e, consegui aos poucos, pôr-me de pé. Como já não estava tanto tempo em casa, também não perdia muito tempo a pensar em coisas que não deveria. Trabalhava num call center, onde encontrei muitas pessoas 5 estrelas. Hoje tenho pena de não ter mantido contacto com algumas delas. Mas na altura eu era um autêntico bicho-do-mato. 

Voltando ao que interessa, pela altura em que estava a trabalhar desenvolvi um plano. Resolvi que iria para a faculdade e desta vez iria inscrever-me no curso de gestão. Voltei a ocupar a cabeça, voltei a estudar para os exames nacionais e entrei na faculdade. Desta vez, senti-me feliz quando vi os resultados do concurso nacional de acesso ao ensino superior. Estava a dar um salto na minha vida, como eu dizia na altura. Estranhamente não parava de ouvir a música da Madonna, jump. 

Contudo, a ideia da homossexualidade não estava aceite, longe disso. Mas acreditava, na altura que era algo que podia reprimir e controlar. Não tinha de o ser, a menos que quisesse. Então dediquei-me aos estudos. Dediquei-me brutalmente. Quando não estava na faculdade, estava a estudar. Se estivesse ocupado não pensaria em mais nada, acreditava eu. Tornei-me num dos melhores alunos da faculdade, recebi bolsas de mérito e acreditava que iria dedicar a minha vida ao trabalho. Acreditava que, eventualmente, isso seria suficiente para garantir alguma felicidade na minha vida. Ia ter uma vida pessoal não muito feliz, mas pelo menos iria ser um excelente profissional e ganhar rios de dinheiro. A minha disposição melhorou um pouco. O grupo de amigos que criei na licenciatura era unido e muito bom. Tive uma sorte tremenda nesse aspecto. 

No entanto, a concha à minha volta, não se abria para nada, nem ninguém. Não deixava ninguém entrar nos meus segredos mais escondidos. Ninguém sabia dos meus dilemas, nem eu queria que ninguém soubesse. Era uma pessoa emocionalmente distante, extremamente focado (mas no sentido de ser mau para os outros) e que pouco se dava a conhecer. Procurava não mostrar os meus sentimentos e olhando para trás percebo que praticamente desenvolvi um medo enorme de tudo o que fazia, de tudo o que dizia, quase que pedia desculpa por existir. E apesar de me esforçar para que ninguém notasse isso, obviamente não o conseguia. A minha autoestima não era muito elevada, portanto. Para terem uma ideia, evitava falar com rapazes, e sempre que se tocava em assuntos de paixões, arranjava uma maneira de me afastar. No fundo, receava que alguém se apercebesse ou que simplesmente suspeitasse da minha homossexualidade. Como se a minha atitude por si só não fosse já, reveladora disso. A convivência comigo mesmo não era de todo saudável ou recomendável.

A propósito disto houve uma vez um episódio que me marcou. Havia uma rapariga a quem eu ia dando uma ajuda nos exercícios e ia-lhe esclarecendo dúvidas. Um dia, já no último ano de licenciatura, para me agradecer, ia abraçar-me. Encolhi-me de tal maneira, que só me lembro de ela dizer qualquer coisa do género: calma não te vou fazer mal. Aquilo tocou-me. Comecei a pensar que poderia estar no caminho errado. Mas não me desviei. Tinha objectivos e para todos os efeitos, aquilo era o resultado deles. Tinha de me manter no caminho que eu próprio havia traçado. 

E assim o fiz, acabei o curso com uma excelente média. Uma média invejada por muitos. E era altura de ir trabalhar. Na altura nem coloquei a questão do mestrado. Face aos meus planos, a ideia era ir trabalhar e fazer-me à vida. Não que quisesse parar os meus estudos por ali mas queria primeiro começar a trabalhar e depois, consoante a área porque enveredasse, especializava-me.

Contudo, mais uma vez a vida trocou-me as voltas. E hoje, posso dizer que ainda bem que isso aconteceu…

Deixemos essa parte para o próximo post.

;D


10 comentários:

  1. Curioso :D em saber em que parte eu entro lolololololol

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    1. Entras mais à frente Francisco! Já quase no fim... lOl

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  2. seguiste por um caminho que pelo menos serviu para aprenderes muitas coisas, acredito que com o que sabes hoje, seguirias um caminho bem diferente :)

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    1. Sem dúvida Aaron... Este caminho pode ter sido bastante complicado, muito demorada, mas fez com que eu aprendesse muito e isso reflecte-se na postura que hoje tenho... ;D

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  3. Francisco: as tantas eras o colega do lado do Ruben no Call Center... LOL

    Ganhar rios de dinheiro, para quê rapaz, se não tens ninguém com quem o partilhar? Eu sei, quando somos jovens, desenvolvemos ideias do mais estranho na nossa cabeça... LOL

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    1. Bem Horatius, se calhar até foi... não faço ideia, mas não é esse o papel dele nesta história... lolol

      Quanto ao resto, eu agora compreendo perfeitamente o que dizes. Aliás, é a maneira como penso agora... mas na altura aquilo lá fazia sentido para mim... uma estupidez, mas fazia sentido... :S

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  4. Este post é mais animador, já aborda o lado da retoma, da recuperação de quando estiveste perto do abismo.

    Estudar e ter boas notas é importante, sem dúvida, mas uma coisa posso garantir: não é nada perto de tudo aquilo de que necessitamos. É uma parte, eu diria, ínfima. Vês pessoas "felizes" sem curso superior; não vês pessoas "felizes" só por terem um curso superior.

    Admiro quem vai à luta. Regressaste aos exames nacionais e enveredaste pelo caminho que querias. Muito bem. :)

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    1. Obrigado Mark...

      Sabes eu naquela altura encarei aquilo como uma forma de escapar a minha realidade e de me ocupar para, também não pensar nela. Hoje estou completamente certo daquilo que tu dizes, mas na altura lá me fazia sentido, o que é que se há de fazer?

      ;D

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  5. Crescer custa Rúben. É muito doloroso por vezes, mas depois são essas etapas que vão moldando os homens interessantes e saudáveis mentalmente. O que me parece ser o teu caso.

    Há pessoas que se resolvem sexualmente aos 16 outras aos 26, outras aos 36 e outras que nunca. Mas isso cabe a cada um de nós decidir conforme a maneira como fomos vivendo e das experiências que fomos tendo. A verdade é que podemos empurrar o problema e fugir durante algum tempo, mas nunca o tempo todo.

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    1. E se custa, custa bastante... Mas como se costuma dizer é com os erros que se aprende e eu aprendi muito com os meus... Eu empurrei o problema (que hoje não é bem problema!) por bastante tempo mas chegou uma altura em que não aguentei mais... hoje acho que estou razoavelmente bem ... lol

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