quarta-feira, 23 de abril de 2014

Foi assim que aconteceu IV



Da última vez, ficámos na entrada do período negro...

As coisas não me correm de feição. Estou magoado, triste, infeliz e desapontado. A minha família, pessoas que eu achava conhecer, afinal não passavam de autênticos desconhecidos. Magoou-me, principalmente o facto de nenhum deles me ter tentado dar a mão, ou ter –se colocado a disposição de me ouvir. Ter um ombro para chorar, por assim dizer. Percebi que nesta família impera o egoísmo e o interesse, e que, no fundo, partilhamos, somente, ADN.

Custou-me bastante, encarar esta dura realidade. O isolamento apodera-se de mim. Cada vez estou mais sozinho. Os meus amigos, ou andam ocupados com a faculdade ou andam ocupados com os seus trabalhos e, portanto, não me ligam muito.

A situação familiar acaba mesmo por piorar. A situação azeda com uma das minhas irmãs, que se arroga no direito de me impor as suas decisões e fazer exigências com bases em supostos favores, que nem os eram. Basicamente ofereceu-me dinheiro quando fiz anos e, na ideia dela, eu só tinha era de estar disponível para o que ela pretendia de mim. Chegou mesmo a dizê-lo de forma directa. Entramos em ponto de ruptura e deixei de lhe falar completamente. Qual a reacção dos restantes membros da minha família?! É uma guerra e há que tomar partidos. Mais uma vez, ninguém tomou o meu. A ideia geral, dita com todas as letras pela minha Mãe, era que eu só tinha era de baixar as orelhas ao pé da minha irmã e aceitar sem resmungar o que ela me dizia. Eu era mais novo que ela e, essa era a regra. Portanto, devia deixar-me de parvoíces e pedir desculpa para que tudo voltasse ao normal. Lembro-me na altura de lhe ter dito claramente, que estava muito enganada e que tal não aconteceria. Não sentia que tivesse cometido algum erro, o ofendido era eu, e eu é que merecia um pedido de desculpas.

Como percebem a minha irmã era, e continua a ser, venerada na minha família. Hoje já nos falamos, e se querem que seja sincero, hoje a atitude dela para comigo é completamente diferente. Serviu a lição e a zanga de dois anos.

Resultado disto, o Rúben ficou cada vez mais sozinho. Não consegui arranjar trabalho e, portanto, passava os dias deitado na cama a ver televisão. Paralelamente, tenho tempo demais para pensar em tudo e mais alguma coisa. Claro que a homossexualidade era um dos pensamentos recorrentes. Dado dia, resolvi ir ao chat do terravista e ver como era aquilo. Que susto que apanhei! Mas, lá meti conversa com um rapaz. Estava cheio de dúvidas sobre tudo. E resolvi questionar esse rapaz. Durante umas duas horas, bombardeei o rapaz com perguntas. Ele era mais velho, e foi, mesmo muito simpático e atencioso. Algo que não seria de esperar para alguém que frequentava um sítio daqueles. Respondeu-me a tudo e, em momento algum, procurou "engatar-me". De certo percebeu a fase em que me encontrava e foi gentil o suficiente para me ajudar no que podia. Fiz-lhe perguntas sobre as mais variadas coisas: sexo, relacionamentos, preconceito e etc. A tudo ele me respondeu.

Tudo aquilo ficou a martelar-me. Pela primeira vez na minha vida algo me tirou o sono. Nunca mais voltei a falar com o rapaz, já nem me lembro do nome que usava. Tudo começa a piorar, o meu isolamento associado a todas estas questões morais e familiares começa a dar os seus frutos. Eu não podia ser homossexual. Juntando a isso, a uma autoestima ferida e uma sensação de inutilidade o que é que dá? Um sentimento de que a vida não faz qualquer sentido e por-lhe um fim seria uma bênção. E fiz algo de que não orgulho nada. Abri o armário dos medicamentos decidido a por um fim a tudo. Na altura, o meu sofrimento e terror era tanto, que aquilo para mim afigurava-se como a única solução. Não tinha vida social e pessoal, as pessoas que me rodeavam não gostavam de mim, para todos os efeitos eu tinha um enorme "defeito" e parecia tão correto na altura fazê-lo.

Mas não o fiz. Fiquei, somente, parado um grande bocado de tempo a olhar para as caixas de comprimidos. Algo em mim me fez parar, não tive coragem e não o fiz. Apercebo-me que bati lá no fundo do buraco, e bem fundo. Ninguém compreendeu o ponto em que estava, e também da minha boca nunca saiu uma palavra sobre a situação. Estive perto, muito perto e ninguém reparou em mim o suficiente para se aperceber em que ponto eu me encontrava.

Bem, felizmente arranjei trabalho. O que se traduziu em sair mais de casa e pensar menos no assunto. Não que tivesse abandonado a ideia do suicídio, mas pelo menos ia adia-la. 

Como perceberam, foi um momento muito negro, muito negro mesmo.

Como sai daqui é matéria do próximo post. ;)

20 comentários:

  1. quero saber o resto e espero, MESMO, que estejas melhor, a todos os níveis.

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  2. quero saber o resto e espero, MESMO, que estejas melhor, a todos os níveis.

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    1. Agora sim, já estou bem... ainda muita coisa aconteceu depois disto.. ;D

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  3. É um bocado assustador, porque me aconteceram coisas mesmo muito parecidas ao que descreves aqui. Também estive num curso que o meu pai ambicionou para mim, só que ao contrário de ti fiquei lá dois anos para ver se conseguia gostar daquilo e acabei por desistir porque odiava completamente. Até hoje foi visto como um capricho, e vivendo no Algarve volta e meia apanho períodos imensos de desemprego... fico à espera pra ver mais (se tivesses google plus até te adicionava pra conversarmos e assim)

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    1. Sim comigo também foi visto essencialmente como um capricho, era a palavra que me faltava.. lol...

      Não querendo ser gozado, mas o que é o google plus. Eu tenho no gmail, o Hangouts. É isso que te referes? Sou um nabo nestas coisas... :S

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    2. É o hangouts sim, basicamente é isso.

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    3. então vou adicionar-te... Lol ;D

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  4. fuck.. fiquei mesmo triste por teres passado por isto.. não consigo compreender como é que as pessoas conseguem ser tão más, não consigo perceber como é que não se consegue perceber como é que as outras pessoas se sentem e não se preocupam..
    pah, gosto muito de te ler desde o teu primeiro post e espero que estejas bem agora (parece-me que sim), mas se precisares algo, estás à distância de um email.

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    1. Oh! obrigado aaron. Fiquei, sinceramente tocado com o teu comentário, e com a tua disponibilidade... Obrigado mesmo ;D ;D

      Eu agora já consigo lidar melhor com as coisas, e isso acaba por se traduzir num melhor relacionamento comigo mesmo e com os outros. Essencialmente cresci...

      Muito obrigado... ;D

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  5. Tenho dois braços e um colo se precisares :D

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    1. Muito obrigado Francisco... Também fiquei, muito tocado pelo tua disponibilidade e pela tua simpatia... é um fofo... Obrigado, mesmo.

      Mais à frente, vais ter um papelinho nesta história... lol ;D

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  6. My Gosh...

    A sério que estiveste quase a pôr termo à vida só por seres gay? Eu acho isso tão distante da minha experiência que fico, olha, atónito. E somos da mesma geração, eu um pouco mais novo. Claro que nem todos reagimos de maneira semelhante, mas palavra de honra de que não tinha noção do "bicho de sete cabeças" que ser homossexual ainda representava (suponho que isso não tenha sido há muitos anos).

    Espero, sinceramente, que esse período negro já esteja nos anais da tua história pessoal.

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    1. Bem não foi só por ser gay. De facto teve um peso substancial, mas foi o acumular de situações que me levou a este ponto. Isto aconteceu a cerca de 5/6 anos. Mas na altura foi bastante complicado para mim lidar com a situação, especialmente porque guardei tudo para mim e transformei coisas que, agora entendo como menores, em autênticos dramas. Big mistake. :/

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  7. Eu tive a sorte de ir estudar fora de casa. Mesmo não sendo talvez o que mais gostasse (bem sabia eu o que queria aos 18 anos...), serviu para me libertar. Acho que graças a isso nunca cheguei à fase a que tu chegas-te. Mas para lá caminharia. Como hoje olho para trás e reflito várias vezes no assunto, enquanto não me aceitei e não consegui gostar de mim mesmo, não consegui gostar de mais ninguém nem ser feliz. É um caminho que vejo hoje que todos temos de fazer. Uns com mais percalços que outros. Vejo que o teu foi altamente sobressaltado, mas creio que se ainda não passaste a meta para conseguir ser feliz, estarás perto. Pelo menos já consegues falar do assunto, o que é bom. Nada como desabafar. E o mau da fase negra é que não há amigos com quem falar. Estou arrepiado com o teu discurso, mas altamente solidário com ele!

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    1. Sabes Horatius, eu acho que me faltou um pouco de distância efectivamente. Foi um período difícil e a minha aceitação pessoal demorou bastante tempo, preferindo muitas vezes andar infeliz, do que conviver pacificamente com a realidade que agora aceito. Também não falei com ninguém, nem exprimi o que sentia a ninguém, o que parecendo que não, piorou a situação. Agora já está ultrapassado. Foi a primeira vez que falei disto e estou um bocado aliviado, honestamente falando. ;D

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    2. Como digo: falar das situações só faz bem :)
      E sobretudo para nós, gays, que vivemos em meios mais pequenos ou mais asfixiantes (que creio que tu te enquadrarás por aqui), é muito mau, porque nos sentimos sozinhos. Eu nunca bati tão no fundo como tu, como disse, porque saí para fora, o que me fez bem a vários níveis, nomeadamente a esse de auto-aceitação. Hoje o reconheço.

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    3. Falar é capaz de fazer autênticos milagres. Pena só saber disso agora... :S

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  8. R. Rúben, eu sei disso, mas digamos que, às vezes, me esqueço. É complicado gostar de mim todos os dias, não sou uma pessoa fácil. | Eu disse que já tinha ouvido qualquer coisa sobre ele haha | espero gostar, mesmo!

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  9. A adolescência é uma fase tramada e muita gente entra em depressões, por vezes muito profundas. Nem todos têm a força o suficiente para sair desses estados depressivos sozinhos e por isso, é que tantas vezes ouvimos falar em desgraças.

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    1. É verdade. Eu felizmente consegui sair dela sozinha, mas conheço muita gente que não foi capaz e passados anos ainda vive à base de anti depressivos. :S

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