segunda-feira, 21 de abril de 2014

Foi assim que aconteceu III





Retomando o ponto onde fiquei no último post, ou seja, o fim do liceu.

Como disse, o rapaz seguiu para a faculdade e eu como não consegui entrar optei por ficar um ano a fazer melhorias de notas. Por acaso o M. (um rapaz de quem já aqui falei) seguiu os meus passos. Para quem não se recorda ou não leu o M. é um amigo meu que também é gay e que o conheci no liceu. O M. vai entrar mais a frente nesta história daí já estar a falar nele.

Mas voltando a mim… o menino Rúben dá consigo constantemente a pensar no rapaz e a sentir demasiadas saudades. Sentia mais saudades dele, do que de outras pessoas com quem havia desenvolvido boas relações de amizade, que perduram até hoje. O distanciamento provocado pelo fim das aulas e também pelo tempo desde a maioria dos acontecimentos fazem-me aperceber da realidade dos meus sentimentos. Eu percebo que me apaixonei por ele, de uma forma muito platónica, mais ainda assim uma paixão. Sobre mim abate-se uma profunda tristeza que somada ao surgimento das questões morais não ajudou nada. Torna-se claro na minha mente que a coisa não se ficava pela pornografia, era mais que isso. Eu realmente era, pelo menos, bissexual. Estas ideias começam a martelar na minha cabeça, cada vez mais e mais. Contudo, o instinto mandava-me reprimir estes sentimentos. E não só reprimir, mas também culpar-me por os ter. Dizia para mim mesmo que não era possível, que estava doido. Tal coisa não me podia acontecer a mim, logo a mim. Isto era tudo psicológico e eu só tinha de contrariar estas ideias. No meu pensamento, se eu tentasse e me esforça-se tudo iria desaparecer. Ocupei a cabeça. Pensava nos estudos e procurava não ter tempos livres. Iniciei um curso de inglês e um curso de um software próprio de arquitetura. Mas as dúvidas iam-se mantendo.

A minha vida prossegue… tudo vai andando na mentalidade que só tinha de reprimir os meus mais “terríveis” pensamentos. Como gosto de ter sempre um plano B para tudo, e, havendo a possibilidade de não entrar em arquitectura, resolvi começar a ponderar outros cursos, outras faculdades. Surgiu no meu caminho a gestão. Curso que me interessou cada vez mais, mais do que a própria arquitectura. Todavia, tal não foi necessário. Consegui entrar no curso de arquitectura, sem problemas. Lembro-me, particularmente, de não ter ficado sequer feliz quando vi os resultados. Acho que uma parte de mim acreditava que não entraria. A minha Mãe rejubilava por todos os lados. Afinal de contas, era um sonho mais dela do que meu. Começam as aulas e vai crescendo em mim a sensação que estou no sítio errado. Aquilo não é para mim. Eu não gosto de desenhar e não tenho a mínima motivação para lá estar. Até que um professor, estúpido como tudo, diz claramente numa aula que estou no sítio errado. Não mo disse olhos nos olhos, mas disse-o. E eu percebi, ou quis perceber, que aquela era a minha deixa. Tomei a decisão que não queria aquilo e nunca mais fui à faculdade. Era altura de abraçar o curso que efectivamente queria: Gestão.

Como calculam, o ambiente em minha casa era um autêntico terror. Entrei em guerra aberta com a minha família toda. Ninguém compreendia tal acto, a minha Mãe principalmente. Disse-me coisas que até hoje recordo, que até hoje guardo na memória. A mais marcante de todas, algo que me disse logo depois da desistência da faculdade: Ou é arquitectura, ou as tuas irmãs também foram trabalhar. Foram palavras que já em bastantes oportunidades lhe tive de recordar, e que sei que se arrepende de as ter dito. Mas disse e magoou-me. E eu tenho memória de elefante. Quanto aos restantes membros da minha família, ninguém tentou perceber os meus motivos ou as minhas razões, mas toda a gente soube criticar e apontar o dedo.

Fiquei magoado e desapontado com todos, e cada um deles. Foram criadas feridas que ainda hoje não sarei. Estando eu já frágil por aquilo que reprimia e teimava em não aceitar, veio mais este golpe. Para todos os lados para que olhava via-me completamente sozinho e isolado, sem ninguém disponível apoiar ou ajudar. Abate-se sobre mim uma profunda tristeza. Embora não tenha consultado nenhum psicólogo garanto-vos que entrei em depressão profunda. Um período muitíssimo negro, meses horríveis. Os piores de toda a minha vida…

Como isto já vai longo, vou deixar o resto para o próximo post.

13 comentários:

  1. custa-me quando vejo pais a querer decidir o futuro dos filhos, a querer manda-los para certo curso por gosto pessoal.
    é algo que eu nunca farei a nenhuma criança/adolescente, darei sempre fora para seguir o que achar melhor para ele.
    fico feliz por ver que seguiste a tua convicção! :)

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    1. Sim, felizmente eu soube separar as coisas e consegui perceber a tempo o que queria... Hoje, unicamente, me arrependo de ter perdido tanto tempo a lutar por algo não queria. Mas sei que foi tempo necessário para um bem maior... ;D

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  2. quero ver o resto, espero que tudo tenha melhorado!

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  3. Acho que os pais quando nos dizem/fazem coisas tão cruéis, essencialmente, é o seu último recurso para nos demover de determinada ideia. Acredito que, por norma, lhes custe horrores dizer o que dizem ou fazer o que fazem. Penso que apenas estão a tentar levar-te para aquilo que eles achem que é o melhor para ti, mesmo que não o seja ou que tu não aches.

    Não sei se foi o caso da tua mãe...

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    1. Eu também acredito que a minha Mãe queria o melhor para mim. Apenas na ideia dela tinha um percurso traçado e eu tinha de o seguir. Além disso, tinha uma certa vergonha do que a família iria pensar, pois espalhou e gabou-se da noticia aos quatro ventos.
      Contudo, há certas coisas que é preciso moderar, e como faz parte do mim não esquecer quando me magoam, tive de lho demonstrar. Hoje, e embora nunca me tenha pedido desculpas, por ser demasiado orgulhosa, sei que se arrepende.
      ;D

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  4. Esperando o próximo post :)

    Abraço amigo

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  5. A tua mãe reagiu injustamente. Não se diz isso. Cada um nasce para o que nasce.

    Sei que a mãe também ficaria infeliz caso optasse por História e deixasse Direito, suponhamos, mas creio que jamais mo diria. Respeitaria a minha opção, apesar de tudo. Aliás, já lhe fiz essa pergunta ("Imagine que eu tinha abandonado Direito ao longo da licenciatura, escolhendo História?") e a reacção dela não foi má - sei que estava a ser sincera.

    Quanto ao reprimir o que sentias, bem, eu fico boquiaberto com estes vossos relatos: desde os meus cinco, seis anos, que sei quem sou e do que gosto. Bom, talvez ainda não tivesse exacta noção, mas sabia que era "diferente" dos outros meninos. Ao dez anos, tinha a certeza absoluta.

    um abraço.

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    1. Nem sabes a sorte que tens Mark. Eu aos 5/6 anos, não fazia a mais pálida ideia do que era. E, sinceramente, nem pensava nisso... queria era brincar e pouco mais. Aliás, eu sempre fui muito crianças nessas coisas, e só despertei para estas realidades muito tarde.

      Quanto à minha Mãe, eu ao longo dos tempos tentei perceber a reacção e acho que lá a maneira retorcida dela estava a tentar fazer o melhor para mim. No entanto, não foi a melhor escolha de palavras, sem dúvida.

      ;D

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  6. Interessante. Acho que isto dos blogues nos mostram que não estamos sozinhos e que as atitudes que tomamos, outros já as tomaram porque estiveram no mesmo dilema. Estou a ler isto de frente e para trás e revejo-me em muitas coisas que passaste, que eu passei aos 18 anos. Por isso sou apologista que as pessoas devem falar mais dos seus problemas, expor as sua dúvidas, porque alguém já passou por isso e ao contar o que decidiu e como agiu perante situação poderá ajudar outras pessoas a escolher mais conscientemente. Não nos podemos esquecer, que em Filosofia se falava em empirismo e acredito que a experiência de vida vale, em muitos casos, mais que livros técnicos e teoria debitada em aulas e conferências que apenas resultam de considerações generalistas e superficiais dos temas.

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  7. Sabes namorado, quando iniciei aqui esta série de posts, era em parte para tentar ajudar que estivesse desse lado e que pudesse neste momento estar a passar por aquilo que eu passei. Mostrar o que eu fiz, para que outros possam tomar decisões diferentes da minhas e de preferência menos sôfregas que as minhas. Eu hoje consigo perceber que demorei demasiado tempo da minha vida a debater-me com coisas que não faziam sentido, coisas que me impediam de ser feliz e me remetiam para uma infelicidade enorme. Hoje percebo a importância de falar deste assuntos, de não guardar tudo. Pois por muito que não seja a nossa intenção, o facto de não desabafarmos leva-nos a fazer autenticas tempestades em copos de água...

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    1. Eu percebo-te. Eu também tive como tu, mas demorei muito mais tempo a aceitar-me e ainda hoje, vou-me aceitando cada dia um bocadinho :) Mas a vida é isto mesmo. Aprender. Pena é que passe a correr LOL

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